domingo, 12 de fevereiro de 2012

SEMINARISTAS DE IMPERATRIZ E CAROLINA PARTICIPAM DE ORDENAÇÃO

Ontem, dia 11 de fevereiro na Paróquia da São Pantaleão, Arquidiocese de São Luís, aconteceu à celebração de ordenação diaconal de Luis Macedo e Irailson, ambos da Arquidiocese. Esta celebração foi presidida pelo vice-presidente da CNBB Nacional e Arcebispo Metropolitano de São Luis, Dom José Belisário. Estavam presentes nessa celebração os seminaristas do Seminário Bom Pastor e o diácono João Neto, da Diocese de Carolina que proclamou o Santo Evangelho.  Deus abençoe a vida e a vocação dos ordenados!


Diácono João Neto - Procissão de Entrada

Imposição das mãos do senhor arcebispo Dom José Belisário

Imposição das mãos do senhor arcebispo Dom José Belisário


Imposição das mãos do senhor arcebispo Dom José Belisário


Imposição das mãos do senhor arcebispo Dom José Belisário


Diácono João Neto 

Dom José Belisário - Arcebispo de São Luis e Vice-presidente da CNBB

Seminaristas após a celebração

Seminaristas após a celebração

Seminaristas e amigos após a celebração

Neo-diácono Luis Macêdo - Arquidiocese de São Luis

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O ESPORTE SEMANAL DOS SEMINARISTAS DO BOM PASTOR CONTOU COM VISITA ILUSTRE 

O bispo diocesano e Viana – Ma, Dom Sebastião Duarte, juntou-se ao grupo de Seminaristas de sua diocese e participaram do esporte semanal aqui do Seminário Bom Pastor – Dioceses de Imperatriz e Carolina. Agradecemos a visita cordial de Dom Sebastião e de seus seminaristas maiores, que agora estão com residência oficial no bairro Sá Viana, mesmo bairro onde é localizado o nosso Seminário. 


Seminaristas


 Dom Sebastião - Jogando com seminaristas


Futebol dos seminaristas de Carolina, Imperatriz e Viana


Futebol dos seminaristas de Carolina, Imperatriz e Viana



Futebol dos seminaristas de Carolina, Imperatriz e Viana



 Dom Sebastião - Jogando com seminaristas

PRIMEIRA REUNIÃO DO SEMESTRE

Como é de costume no Seminário Bom Pastor, é realizada sempre nos primeiros dias do semestre, uma reunião na qual é eleito o prior e demais secretários para o bom andamento da casa de formação. Conheçamos como ficou as pastas e distribuição dos cargos no Seminário Bom Pastor. (Ausentes Jerimário - 1º ano de Filosofia - responsável pelas galinhas e Jhonata - 1º ano de Filosofia. As fotos abaixo foram tiradas no retiro espiritual realizado na Diocese de Imperatriz e tendo como Pregador Pe. Geraldo Braz - Pároco da Paróquia Imaculada Conceição, da cidade de Buritirana - MA)

Pe. Ivanildo Oliveira 
Reitor do Seminário Bom Pastor - Dioceses de Imperatriz e Carolina


Prior
Luciano Nascimento - 3º ano de Filosofia


Ecônomo Geral
André Farias - 2º ano de Teologia


Bibliotecário e Benfeitores 
Laersio Machado - 4º ano de Teologia


Listeiro e Galinhas
Jafélix de Souza - 3º ano de Filosofia


Comunicação
Sandro Lima - 3º ano de Filosofia


Hóspedes
Maicon Pontarole - 2º ano de Filosofia


Hóspedes
Moisés Bispo - 3º ano de Filosofia

Esporte e Lazer
Jorge - 1º ano de Filosofia


Esporte e Lazer
Donizete Quaresma - 3º ano de Filosofia



ABERTURA DO ANO DE 2012 NO 
SEMINÁRIO BOM PASTOR






No ultimo domingo do mês de Janeiro, às 11h da manhã, Pe. Ivanildo Oliveira – reitor do Seminário Maior Bom Pastor – presidiu a missa do Terceiro Domingo do Tempo Comum e abertura de ano na casa de Formação da Diocese de Imperatriz e Carolina. Ele acolheu com alegria aos onze seminaristas que compõem a turma de 2012. Apresentou-nos ao seminário dizendo que estamos em nossa casa e desejou um ano abençoado e perseverança da caminhada vocacional.


MISSA E AULA MAGNA DÃO INICIO AO 
ANO LETIVO 2012

Na segunda-feira dia 30 de janeiro na Igreja de Santo Antônio, no centro Histórico da capital maranhense Dom Sebastião Duarte presidiu a missa inaugural do ano Letivo do Instituto de Estudos Superiores do Maranhão – IESMA, celebração concelebrada por outros bispos do Regional NE5 e pelos Reitores, Formadores e Padres Professos da Faculdade Católica. Após a celebração deu-se inicio a Aula Magna, como o tema central: Celibato, ministrada pelo reitor do Seminário da Diocese de Viana.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

CELEBRAÇÕES FESTIVAS NO SEMINÁRIO

Ontem, 30 de novembro, festa de Santo André, Apóstolo, foi um dia muito especial para o nosso Seminário, marcado por alguns eventos significativos em nossa caminhada. Estamos em plena visita canônica pastoral de Dom Gilberto Pastana - de 29 de novembro a 02 de dezembro. Durante a celebração desta quarta-feira os seminaristas Francisco Nilson e Francildo foram admitidos entre os candidatos às ordens sacras: é o último passo, praticamente, em vista da ordenação diaconal, quando eles se consagrarão ao serviço do Povo de Deus.
A celebração marcou também a despedida do Pe. Elisvaldo Cardoso como reitor do Seminário Bom Pastor e a posse do novo reitor, Pe. Ivanildo Oliveira. Pe. Elisvaldo permanecerá em São Luís, como administrador da Paróquia São José do Bonfim, na Vila Nova, até a conclusão do seu curso de psicologia. Pe. Ivanildo, recém-chegado do mestrado em Direito Canônico, em Roma, assumiu a reitoria do Seminário, devendo permanecer na função por seis anos. Além de reitor, Pe. Ivanildo será também professor de Direito Canônico no Instituto de Estudos Superiores do Maranhão - IESMA e auxiliará no Tribunal Eclesiástico Regional de São Luís.
A celebração litúrgica contou com a presença de familiares dos seminaristas, membros das comunidades em que realizam suas atividades pastorais, membros da comunidade local do bairro Sá Viana, amigos de Imperatriz que residem ou estudam em São Luís, amigos de caminhada dos demais seminários e da faculdade, vários reitores e alguns padres da Diocese. A celebração contou com mais ou menos 200 pessoas. Após a Santa Missa foi oferecido um jantar festivo.
Em breve postaremos em nosso blog as fotos dos momentos principais da celebração.

sábado, 19 de novembro de 2011

QUAL É A NOSSA ESPERANÇA?



Pôr do sol às margens do rio Tocantins em Imperatriz - MA
(Foto de Valdizar Lima)
 

O mês de novembro nos leva a pensar naquelas realidades que se apresentam no horizonte de nossas vidas, com as quais todos vamos nos deparar: a morte (Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos), o Paraíso (Solenidade de Todos os Santos) e a instauração definitiva do Reino de Cristo (últimos domingos do Tempo Comum, Solenidade de Cristo Rei do Universo e primeira parte do Tempo do Advento). A morte, o juízo, a vida eterna, o Reino de Deus são realidades escatológicas, ou seja, que dizem respeito ao eschaton (o "fim", no sentido de plenitude, realização, destino, mas não de destruição) do homem e do mundo.
Em 30 de novembro de 2007 o Papa Bento XVI publicou sua segunda Carta Encílica, intitulada Spe Salvi, sobre a esperança cristã. É o documento mais atualizado da Igreja sobre a escatologia, que busca apresentar a "razão da nossa esperança" (cf. 1Pd 3,15) em diálogo com as críticas da Modernidade, removendo preconceitos e falsas interpretações e propondo com clareza o pensamento eclesial.
Como um convite à leitura deste documento pontifício, apresento aqui um resumo que preparei dos seus conteúdos centrais, com o desejo de contribuir para a formação dos nossos fiéis.

BENTO XVI E A ESPERANÇA CRISTÃ:
resumo da Carta Encíclica Spe Salvi

Laersio da Silva Machado
3º ano de Teologia - Diocese de Imperatriz

1 INTRODUÇÃO
“Atualmente permanecem estas três: a fé (πίστις), a esperança (ελπίς), o amor (αγάπη). Mas a maior delas é o amor” (1Cor 13,13). Bento XVI, como teólogo fundamental de matriz Agostiniana (e, portanto, paulina) e influenciado pela Theologia crucis de Hans Urs von Balthasar (“só o amor é crível”), concorda plenamente com essa perícope da carta aos coríntios. Tanto é verdade que, segundo afirmam muitos vaticanistas, ele assumiu o projeto de apresentar ao longo de seu pontificado, em três encíclicas, cada uma das virtudes teologais.
Dando-se crédito a tal informação, percebe-se a lógica paulina da composição. Bento XVI inicia tratando da maior das virtudes, o Amor: Deus caritas est (1Jo 4,16). Este é, de fato, o incipit da sua primeira carta encíclica, mas é também o pano de fundo de outros dois documentos: a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis e a Carta Encíclica Caritas in Veritate.
A primeira das virtudes, a Fé, ao que parece será tratada no ano próximo – para o qual foi convocado um “Ano da Fé”, com o objetivo de repropor a fé cristã ao mundo na comemoração do Cinquentenário da Abertura do II Concílio Ecumênico do Vaticano (1962 – 2012). Aguarda-se uma encíclica sobre a Fides para breve.
Mas a segunda das virtudes, a Esperança, foi o tema da Carta Encíclica Spe Salvi, aqui resumida. “Spe Salvi facti sumus” – “Na esperança é que fomos salvos” (Rm 8,24). Esta encíclica aborda toda a problemática contemporânea da esperança: se Theodor Adorno afirmou que não pode haver poesia depois de Auschwitz, Bento XVI tenta responder à pergunta de se é possível não apenas "falar sobre", mas "encontrar uma" esperança para a humanidade depois de Auschwitz.

2 A ESPERANÇA CRISTÃ: FÉ E SALVAÇÃO

A encíclica tem início com a afirmação categórica, fundada no texto paulino que lhe serve de incipit, de que a esperança cristã é de tal magnitude que, por si mesma, é portadora de salvação. Indagando-se sobre que tipo de esperança é esta, então, Bento XVI apresenta, a partir do dado bíblico, a quase identidade entre esperança e fé: quem não tem fé, quem não encontrou Deus, não possui esperança neste mundo (cf. Ef 2,12).
A esperança cristã funda-se no conhecimento de Deus – do verdadeiro Deus. Não se trata de uma esperança fugaz de teor político, mas de um encontro com um Ser, com uma Vida que comunica vida, um encontro com o Absoluto que transforma e dá sentido a toda a existência humana: a esperança cristã é o encontro pessoal com Deus em Jesus Cristo.
Encontrar Deus, o Verdadeiro Deus é reconhecer que a vida tem um sentido, que ela não é dirigida pela sobranceira imprevisibilidade do destino, nem pela cíclica configuração dos astros, mas que ela está nas mãos de seu Autor.
A fé é, incoativamente, a realização de tudo aquilo que somos chamados a ser em plenitude no nosso telos, em Deus: ela já é início da eternidade. E por isso a fé é esperança, e esperança redentora, pois ela nos mergulha na tensão do “já” possuir os bens eternos e do “ainda não” possuí-los em plenitude.
Bento XVI prossegue tentando responder ao questionamento do homem de hoje acerca do sentido de uma vida eterna: afinal, que realidade-promessa é esta? Para tanto, retomando os Padres da Igreja – em particular Ambrósio de Milão – recorda que todo homem traz inscrito em si um profundo desejo de eternidade. Desejo que esconde e revela um paradoxo: não nos conformamos com a brevidade da vida na terra, desejamos durar por mais tempo, por todo o tempo; mas não desejamos perpetuar os sofrimentos aos quais estamos sujeitos. Queremos e não queremos ser eternos. A finitude humana é, portanto, um remédio para a tediosa e sofrida “vida eterna” neste mundo.
A este paradoxo Agostinho dá um novo sentido: nós almejamos a vita beata, a vida feliz, bem-aventurada. Não desejamos perpetuar os sofrimentos, mas sim a felicidade. E é isso que pedimos na oração. Mas pedimos sem conhecimento, sem saber o que desejamos, tateando no escuro de nossa docta ignorantia.
Esta realidade que parece tão confusa – que é desejada e repugnada, que “já-é” e que também “ainda-não-é” – é a esperança que nos move. É, diz o Papa Ratzinger, “algo parecido com o instante repleto de satisfação, em que a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe (...), um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria” (SS, n. 12).
Adentrando nas críticas do pensamento moderno ocidental à esperança cristã, Bento XVI passa a confrontar a esperança cristã (em seu rosto original e profundo) com a esperança construída como alternativa a esta pela Modernidade.
Os modernos acusam a esperança cristã, fundada na crença na salvação, de ser individualista: enquanto olhamos o céu, em busca de um momento em que seremos arrebatados ao encontro do Senhor, esquecemo-nos do mundo e, muito ocupados em encontrar a nossa salvação, deixamos os demais entregues à própria sorte e às suas misérias.
Citando Henri de Lubac, buscando nas Sagradas Escrituras o fundamento último, o Papa Bávaro demonstra o caráter social, coletivo da esperança cristã: não nos salvamos sozinhos, mas em conjunto, como Civitas Dei, Populo Dei. E vai além: aponta a origem dessa tergiversação da mensagem cristã.
Francis Bacon e seus adeptos indicaram a ciência como a responsável pela dominação da natureza, a realização de todo progresso e a conquista da absoluta autonomia do homem pela razão e pela liberdade. A esperança tinha um novo nome: não mais fé, mas progresso. A religião, portanto, perdeu seu papel de portadora da esperança para a humanidade. Ela deveria agora oferecer ao homem apenas o cuidado de sua alma em vista da salvação eterna individual.
A caminhada em busca do progresso com o Iluminismo e seus continuadores (o marxismo, por exemplo), tornou-se um progressivo distanciamento da esperança cristã, sempre mais relegada para a esfera individual, privada – quando não sumariamente eliminada não como desnecessária, mas como prejudicial (p. ex. os radicais da Revolução Francesa e do materialismo).
Os resultados da história, porém, foram funestos: nenhum dos caminhos que prometeram o Reino do Homem como era de plena realização das esperanças funcionou. O Iluminismo levou, de um lado (o de Marx) ao impasse diante do dia depois da ascensão do proletariado que conduziu a Stálin e seus expurgos, e, de outro lado (o do capitalismo) ao império da vontade (Hitler e os campos de concentração) e ao absurdo da técnica (a Bomba Atômica dos Estados Unidos).
Ambos os modelos buscaram uma esperança des-humana: o homem permanece sempre homem, capaz de escolhas (pelo Bem e pelo Mal). E por causa desta ambiguidade potencial as realizações humanas também são ambíguas: podem salvar ou matar. Um progresso fundado na técnica, na ciência, na economia é um projeto falido em sua raiz.
É preciso antes um progresso ético, que se faz sempre de novo, a cada geração: este é o verdadeiro exercício da liberdade. Ser livre é escolher quais os caminhos trilhar diante da realidade, tendo como base as experiências do passado, mas não irremediavelmente determinado ad extra por elas.
Para trilhar este caminho em busca de uma esperança que seja factível e suficiente, enfim, que seja verdadeira, é preciso fazer a autocrítica da modernidade, mas também do cristianismo moderno (a devotio moderna, que embarcou na onda do momento e dirigiu-se de maneira intimista ao indivíduo isolado).
“Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor” (SS, n. 26). Esta é a vida eterna: é viver o amor imperecível, o amor sem ocaso, o Amor que é uma Pessoa (Jo 17,3; 1Jo 4,16), que encontramos em Cristo Jesus.
A relação com Deus, com o Amor Eterno, faz-se através de Jesus. E, apesar de pessoal, não é individual: o encontro com Jesus insere-nos no objetivo de sua Encarnação – a salvação de todos. É neste “todos” que nós entramos em relação: o telos de Jesus Cristo era oferecer a Vida, a Esperança definitiva a “todos”; encontrando-nos com Jesus e entrando em relação com ele também nós assumimos o telos de Jesus como nosso.
A esperança cristã aprende-se em alguns “locais” específicos. Antes de tudo na oração, quando nos lançamos confiadamente naquele que jamais deixa de nos ouvir, que jamais nos abandona à nossa própria sorte, mas que está sempre à nossa espera. E a oração, que é – segundo Agostinho – o exercício do desejo, da dilatação da alma, leva a um caminho para encher-se de esperança: é preciso retirar o vinagre do recipiente de nosso coração para dar lugar à doçura do mel com que Deus quer preenchê-lo. Só há lugar para a esperança onde se retirou a desesperança e o desamor.
Mas a ação e o sofrimento também são “lugares” de aprendizado da esperança. Lá onde as forças parecem insuficientes, onde parece não haver esperança alguma, é lá que devemos esperar contra toda humana esperança. É esta “grande esperança” que permite ao homem suportar as ondas revoltas da História e as vicissitudes da vida cotidiana sem desesperar. E esperar além dos sofrimentos não significa resignar-se diante destes e não tentar minorá-los: significa ter a consciência de que é impossível removê-los de todo do horizonte da humanidade.
É nos porões, nos calabouços da vida humana, na “hora das trevas” que também encontramo-nos – mais uma vez – com Jesus Cristo: ele desceu ad inferos para aproximar-se de quem foi ali lançado, para erguê-lo novamente à sua condição de dignidade, transformando trevas em luz.
Bento XVI apresenta, num confronto com as expectativas da Modernidade e do homem de hoje, o Juízo como lugar não só de aprendizagem, mas de exercício da esperança. O Juízo não pode ser mais apresentado como o quiseram os artistas do fim da Idade Média e do Renascimento: o Dies Irae, terrível e temível. É ele o momento do encontro definitivo com a razão de toda esperança. É o termo da esperança, que de “espera” torna-se realização, ato. Inferno, paraíso e purgatório não são e nem podem ser elementos de temor, mas de esperança: esperança na Justiça (o mal não triunfará, mas será condenado) e na Graça (o amor de Deus superará as fraquezas humanas, “queimando” as imperfeições e impurezas que encobriam o tesouro da vida divina no coração).
Por fim, dirigindo o olhar para Maria, Estrela da Esperança, Bento XVI eleva uma prece para que todos os homens aprendam dela a crer, esperar e amar. Ela é a "estrela da esperança": como peregrina na fé (Lumen Gentium 58), já encontrou o porto ao qual nos destinamos. Agora, como a estrela polar, ela nos indica o nosso Norte, o destino para o qual navegamos em meio às tormentosas e revoltas ondas do mar da vida. Olhando para tal estrela podemos ter certeza de atingir também o nosso destino: a vida eterna em comunhão com Deus, que é nossa esperança.

3 CONCLUSÃO

A Carta Encíclica Spe Salvi, com clareza de doutrina e de argumentação, estabelece um diálogo com as mais críticas tendências filosóficas da modernidade, respondendo a seus questionamentos e apresentando também as suas falhas nos seus projetos de “esperança”.
Bento XVI não trilha a senda de uma batalha apologética, comprovando a veracidade incontestável da doutrina eclesial contra as heréticas proposições dos “modernistas”. Ao contrário, em seu diálogo é capaz de apontar também os elementos positivos das mais diversas posições filosóficas – mesmo o marxismo. Ele rompe com alguns preconceitos e más-compreensões da doutrina católica e, apresentando o verdadeiro rosto da esperança cristã, demonstra como ela é capaz de responder satisfatoriamente aos anelos do homem.
O Papa faz um convite que deve ser aceito por todos: não basta passar em revista a história da filosofia e, com o dedo em riste, indicar as falhas dos que pensaram de modo diferente. É preciso um exame também do cristianismo moderno, do cristianismo atual: a pergunta, pleonasticamente, seria “que esperança esperamos”? Fazendo este exercício de honestidade e de correção de desvios poderemos, como pede São Pedro, estar prontos a “dar a razão de nossa esperança a todos aqueles que nos pedirem” (1Pd 3,15).


REFERÊNCIAS


BENTO XVI. Carta encíclica Spe Salvi do Sumo Pontífice Bento XVI aos bispos, presbíteros e diáconos, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos sobre a esperança cristã. 4.ed. São Paulo: Paulinas, 2008. (A voz do Papa, 192).

terça-feira, 18 de outubro de 2011

ANO DA FÉ (11/out/2012 - 24/nov/2013)


No último domingo o Santo Padre, o Papa Bento XVI, anunciou a convocação de um Ano da Fé por ocasião do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II (11/out/1962 - 08/dez/1965). No dia seguinda, 17 de outubro, foi publicada a Carta Apostólica sob forma de motu proprio PORTA FIDEI, convocando o evento e apresentando os seus objetivos. O anúncio foi feito durante a Missa com os participantes de um encontro internacional sobre a Nova Evangelização. É preciso ressaltar que o cinquentenário do Concílio será comemorado também com a celebração do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, em Roma, no mês de outubro do próximo ano.
Apresentamos, agora, o texto do documento pontifício de convocação do Ano da Fé.


CARTA APOSTÓLICA
SOB FORMA DE MOTU PROPRIO
PORTA FIDEI
DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
COM A QUAL SE PROCLAMA O ANO DA FÉ

1. A PORTA DA FÉ (cf. Act 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início no Baptismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos crêem n’Ele (cf. Jo 17, 22). Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.
2. Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude»[1]. Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado.[2] Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.
3. Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6, 51). De facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é esta: crer n’Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.
4. À luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de 2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa João Paulo II,[3] com o objectivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao serviço da catequese[4] e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de Outubro de 2012, tendo por tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã. Será uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um Ano da Fé. O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um ano semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, «uma autêntica e sincera profissão da mesma fé»; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira «individual e colectiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca».[5] Pensava que a Igreja poderia assim retomar «exacta consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar, confessar».[6] As grandes convulsões, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal celebração. Esta terminou com a Profissão de Fé do Povo de Deus,[7] para atestar como os conteúdos essenciais, que há séculos constituem o património de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado.
5. Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma «consequência e exigência pós-conciliar»[8], bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira fé e da sua recta interpretação. Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa».[9] Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja».[10]
6. A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. O próprio Concílio, na Constituição dogmática Lumen gentium, afirma: «Enquanto Cristo “santo, inocente, imaculado” (Heb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5, 21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Heb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja “prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus”, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz».[11]
Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens à conversão de vida por meio da remissão dos pecados (cf. Act 5, 31). Para o apóstolo Paulo, este amor introduz o homem numa vida nova: «Pelo Baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm 6, 4). Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A «fé, que actua pelo amor» (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de acção, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17).
7. «Caritas Christi urget nos – o amor de Cristo nos impele» (2 Cor 5, 14): é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28, 19). Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada geração: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Na descoberta diária do seu amor, ganha força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de facto, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos. Os crentes – atesta Santo Agostinho – «fortificam-se acreditando».[12] O Santo Bispo de Hipona tinha boas razões para falar assim. Como sabemos, a sua vida foi uma busca contínua da beleza da fé enquanto o seu coração não encontrou descanso em Deus.[13] Os seus numerosos escritos, onde se explica a importância de crer e a verdade da fé, permaneceram até aos nossos dias como um património de riqueza incomparável e consentem ainda que tantas pessoas à procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar à «porta da fé».
Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus.
8. Nesta feliz ocorrência, pretendo convidar os Irmãos Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de Pedro, no tempo de graça espiritual que o Senhor nos oferece, a fim de comemorar o dom precioso da fé. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda. Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver. Teremos oportunidade de confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão forma de fazer publicamente profissão do Credo.
9. Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força».[14] Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada[15] e reflectir sobre o próprio acto com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.
Não foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram obrigados a aprender de memória o Credo. É que este servia-lhes de oração diária, para não esquecerem o compromisso assumido com o Baptismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): «O símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele».[16]
10. Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o acto pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o acto com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro acto, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e acção da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.
A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Act 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.
Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este «estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um acto da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.
A própria profissão da fé é um acto simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Baptismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”».[17]
Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor.[18]
Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro «preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do homem traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que vale e permanece sempre».[19] Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para caminhar ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele mesmo não tivesse já vindo ao nosso encontro.[20] É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.
11. Para chegar a um conhecimento sistemático da fé, todos podem encontrar um subsídio precioso e indispensável no Catecismo da Igreja Católica. Este constitui um dos frutos mais importantes do Concílio Vaticano II. Na Constituição apostólica Fidei depositum – não sem razão assinada na passagem do trigésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II – o Beato João Paulo II escrevia: «Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial».[21]  
É precisamente nesta linha que o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé.
Na sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, a seguir à profissão de fé, vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está presente e operante, continuando a construir a sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia e a oração.
12. Assim, no Ano em questão, o Catecismo da Igreja Católica poderá ser um verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para quantos têm a peito a formação dos cristãos, tão determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade, convidei a Congregação para a Doutrina da Fé a redigir, de comum acordo com os competentes Organismos da Santa Sé, uma Nota, através da qual se ofereçam à Igreja e aos crentes algumas indicações para viver, nos moldes mais eficazes e apropriados, este Ano da Fé ao serviço do crer e do evangelizar.
De facto, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogativos, que provêm duma diversa mentalidade que, hoje de uma forma particular, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade.[22]
13. Será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado. Enquanto a primeira põe em evidência a grande contribuição que homens e mulheres prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos uma sincera e contínua obra de conversão para experimentar a misericórdia do Pai, que vem ao encontro de todos.
Ao longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, «autor e consumador da fé» (Heb 12, 2): n’Ele encontra plena realização toda a ânsia e anélito do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição. N’Ele, morto e ressuscitado para a nossa salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos da nossa história de salvação.
Pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1, 38). Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55). Com alegria e trepidação, deu à luz o seu Filho unigénito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2, 6-7). Confiando em José, seu Esposo, levou Jesus para o Egipto a fim de O salvar da perseguição de Herodes (cf. Mt 2, 13-15). Com a mesma fé, seguiu o Senhor na sua pregação e permaneceu a seu lado mesmo no Gólgota (cf. Jo 19, 25-27). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para receberem o Espírito Santo (cf. Act 1, 14; 2, 1-4).
Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10, 28). Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de Deus presente e realizado na sua Pessoa (cf. Lc 11, 20). Viveram em comunhão de vida com Jesus, que os instruía com a sua doutrina, deixando-lhes uma nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos como seus discípulos depois da morte d’Ele (cf. Jo 13, 34-35). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15) e, sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da ressurreição, de que foram fiéis testemunhas.
Pela fé, os discípulos formaram a primeira comunidade reunida à volta do ensino dos Apóstolos, na oração, na celebração da Eucaristia, pondo em comum aquilo que possuíam para acudir às necessidades dos irmãos (cf. Act 2, 42-47).
Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores.
Pela fé, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver em simplicidade evangélica a obediência, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que não tarda a vir. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma acção em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4, 18-19).
Pela fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as idades, cujo nome está escrito no Livro da vida (cf. Ap 7, 9; 13, 8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão: na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados.
Pela fé, vivemos também nós, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na história.
14. O Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade. Recorda São Paulo: «Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade» (1 Cor 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas – que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o apóstolo Tiago: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar sensatamente: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé”» (Tg 2, 14-18). 
A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar o seu caminho. De facto, não poucos cristãos dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo. Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. «Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3, 13; cf. Ap 21, 1).
15. Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo Timóteo que «procure a fé» (cf. 2 Tm 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2 Tm 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.
Que «a Palavra do Senhor avance e seja glorificada» (2 Ts 3, 1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro. As seguintes palavras do apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz sobre a fé: «É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé – muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, credes n’Ele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas» (1 Ped 1, 6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1, 24) , são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós, vence o poder do maligno (cf. Lc 11, 20); e a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece n’Ele como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.
À Mãe de Deus, proclamada «feliz porque acreditou» (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de graça.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Outubro do ano 2011, sétimo de Pontificado.

BENEDICTUS PP. XVI


[1] Homilia no início do ministério petrino do Bispo de Roma (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 710.
[2] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço (Lisboa – 11 de Maio de 2010): L’Osservatore Romano (ed. port. de 15/V/2010), 3.
[3] Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 113-118.
[4] Cf. Relação final do Sínodo Extraordinário dos Bispos (7 de Dezembro de 1985), II, B, a, 4: L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/XII/1985), 650.
[5] Paulo VI, Exort. ap. Petrum et Paulum Apostolos, no XIX centenário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo (22 de Fevereiro de 1967): AAS 59 (1967), 196.
[6] Ibid.: o.c., 198.
[8] Paulo VI, Audiência Geral (14 de Junho de 1967): Insegnamenti, V (1967), 801.
[9] João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 57: AAS 93 (2001), 308.
[10] Discurso à Cúria Romana (22 de Dezembro de 2005): AAS 98 (2006), 52.
[11] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 8.
[12] De utilitate credendi, 1, 2.
[13] Cf. Confissões, 1, 1.
[14] Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 10.
[15] Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 116.
[16] Santo Agostinho, Sermo 215, 1.
[18] Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 5.
[19] Bento XVI, Discurso no «Collège des Bernardins» (Paris, 12 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 722.
[20] Cf. Santo Agostinho, Confissões, 13, 1.
[21] Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 115 e 117.
[22] Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 34.106: AAS 91 (1999), 31-32.86-87.

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